A Vida dum MAP

MAPness em português

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Por shocu
Telegram: @shocu7

Nasci de dois pais amorosos que até hoje sempre estiveram ao meu lado. Fui criado num ambiente multilíngue, pois tinha familiares procedentes de diferentes culturas. Aos 4 anos, o meu tio apresentou-me ao maravilhoso mundo dos videogames, uma obsessão que me seguiria até hoje. Na escola não era um estudante muito bom no princípio, e num ponto tive que repetir um ano inteiro. Felizmente, pude finalmente conseguir desadormecer-me e começar a me pôr em dia nos estudos. Pude até pular um ano acadêmico depois, o que me colocou novamente no nível que devia estar.

Em geral, diria que a minha infância foi relativamente ordinária. Nada particularmente excepcional. Porém, olhando para atrás agora, reconheço certos aspectos — ou “pistas”, por assim dizer — que como criança me eram invisíveis, mas que eram mesmo assim indícios de algo que marcaria uma parte fundamental da minha existência, algo que agora sei formou parte de mim desde o começo.

Lembro-me, talvez como aos 6 ou 7 anos, que às vezes gostava de imaginar o Young Link de The Legend of Zelda: Ocarina of Time nu. Não sabia por que naquele tempo, claro, mas por alguma razão simplesmente gostava de imaginá-lo assim. Acho que fiz o mesmo com outros meninos de outras séries de jogos/televisão. Uns anos depois, comecei a fazer o mesmos com garotos que conhecia: os imaginava nus. Não faziam nada em particular, para ser claro. Simplesmente os imaginava nus.

Em retrospecto, posso reconhecer que esses pensamentos eram só sinais do que estava por vir, mas naquele tempo, como criança, não questionava essas coisas. Eram apenas pensamentos que desfrutava por alguma razão.

Como aos 13 anos, comecei a aprender sobre o sexo, ensinado primeiro pelos meus pais e mais tarde na escola (educação sexual). Aprendi sobre a puberdade e me perguntei quando me aconteceria. Durante este tempo, sabendo o que era agora, comecei a perceber que às vezes imaginava meninos de minha idade ou menores em situações sexuais. Pensei que era normal, pois eu mesmo ainda era um garoto. No entanto, quando cheguei à puberdade aos 14 anos, esses pensamentos tornaram-se mais intensos. Comecei a me masturbar com mais frequência, e às vezes parecia que não podia pensar em outra coisa. Suponho que não era fora do comum que adolescentes dessa idade se sentissem libidinosos, pois o impulso sexual está acordando pela primeira vez. Mas teve algumas coisas que não pude deixar de notar: primeiro, ainda sentia-me excitado ao imaginar garotos de minha idade ou menor em situações sexuais. Isso ainda não me preocupava muito, já que ainda o achava normal, mas o segundo que percebi foi que mulheres adultas nunca pareciam me atrair de todo. Nunca as imaginava ao me masturbar e nunca achei o corpo feminino muito chamativo. Achei isso bastante estranho. A cultura e a mídia que me rodeavam sugeriam vigorosamente que garotos como eu deveriam se babar ao ver uma fêmea. Tanto garotos de minha idade quanto homens adultos pareciam sempre estar tão obcecados por coisas como seios, e porém, no meu caso, achava seios repulsivos.

Talvez tudo isso significava que era gay? Essa ideia certamente passou pela minha cabeça, mas o problema era que também não achava homens particularmente atraentes.

Já aos 15 anos, comecei a captá-lo. Ainda imaginava garotos, mas desta vez não eram de 15 anos; imaginava garotos tão maiores quanto 14 mas tão novos quanto 9. Durante esse período na minha vida, já tinha escutado a palavra “pedofilia”, ainda que o único que sabia baseava-se em notícias e história horrorosas de velhos pervertidos que abusavam insensatamente de crianças pelo próprio prazer. Estava confuso. Não sabia como interpretar tudo isso, e comecei a me preocupar bastante. A ansiedade adentrou-se, uma ansiedade que duraria até a maturidade. Não queria acreditar. Não fazia sentido. Por que teria eu semelhança alguma com aquele velho nojento na televisão? Não queria ser uma má pessoa, e não o era, mas como como era para eu compreender tudo isso? Não parecia haver nada que pudesse fazer a respeito. Tentar forçar-me a pensar só em adultas quando sentia-me excitado não parecia ser muito eficaz. De fato, só o fez ficar mais claro que eram só rapazes jovens que me faziam sentir assim. E também não era que eu desfrutasse desse fato; aterrorizava-me o que podia significar tudo isso, mas não tinha nada que pudesse fazer para mudá-lo. O que era pior, tinha muito medo de falar disso com alguém. Temia como reagiriam os outros. Temia que nunca iriam quer falar comigo de novo, que me denunciariam à polícia, que a minha vida, em essência, terminaria. Naquele tempo, não entendia muito bem os aspectos legais desse tema. Tinha a impressão que simplesmente ter esses sentimentos era suficiente para constituir um crime. Também temia muito tentar procurar informações sobre isso na Internet; pensei que inclusive procurar palavras como “pedófilo” era suficiente para me meter em apuros.

Com o tempo, o medo e a ansiedade desenvolveram-se em pesadelos recurrentes. Às vezes sonhava que minha família ou todos que conhecia de algum jeito acabavam descobrindo isso e virando contra mim em desgosto. Lembro-me dum pesadelo em particular que tive em várias ocasiões. A minha mãe, que tinha descoberto isso de algum modo, virou-se para me olhar. Sua expressão era como a de presenciar a sequência duma massacre: indignação, vergonha, repugnância. Os seus olhos lacrimejavam, tinha o cenho tão franzido que parecia que ia partir sua cara em dois. Ela gritou para eu sair. Tentei lhe suplicar, mas ela só gritou mais forte. Ao afastar-me, vi outros familiares aparecerem: meu pai, meus avós, meus tios, meus primos, todos com a mesma expressão e todos gritando o mesmo: “Sai!” Entrei em pânico. Saí correndo pela porta da minha própria casa e fui pelas ruas. Ainda podia ouvir minha família na distância. No final, ouvi os gritos a me rodear: “Sai!” Essa palavra, junto com uma mistura de insultos, procediam de quase todas as casas da vizinhança. As pessoas saíam de seus lares. Encontrei-me cercado. Não tinha lugar nenhum para fugir, e o mundo inteiro estava contra mim, prestes a fazer quem sabe o quê.

Um dia decidi por fim começar a procurar informações na Internet. Ao princípio nem sabia bem o que procurar. Não sabia sobre termos como “MAP”, “atração por menores”, “cronofilias” nem nada disso, e a palavra “pedofilia” ainda tinha uma conotação muito negativa para mim. Contudo, procurei o que pude. No início, o que encontrei não era muito reconfortante: notícias sobre meninos molestados, discussões sobre os horrores da pedofilia e como todo pedófilo merecia a morte.

No entanto, consegui finalmente me deparar com recursos mais informativos. Li o artigo na Wikipédia sobre a pedofilia, o que me levou a artigos sobre outras cronofilias e grupos como Virtuous Pedophiles, além de outros artigos na Internet que tratavam do tema. Por fim começava a entender o que era que tinha. Não se tratava duma maldição que me predestinava a virar monstro; tratava-se duma atração que a vida me deu sem que eu fizesse nada. Não era muito dessemelhante da homossexualidade nesse sentido. Compreendi que o simples fato de ter essa atração não significava que fosse má pessoa. Claro, não estava tão bem articulado na minha cabeça naquele tempo; levou-me vários anos para processar tudo isso adequadamente. Durante todos esses anos, continuava a ter pesadelos recurrentes e problemas com a autoestima. Em certos momentos na minha vida, tive pensamentos suicidas passar pela cabeça.

Durante minha busca, também encontrei informações acerca de grupos como NAMBLA e alguns argumentos pró-contato. No princípio não sabia o que pensar sobre essas coisas. O conceito do consentimento de crianças não era algo no que pensava muito, apesar de ter descoberto minha atração. Eu ainda era menor, então a ideia dum relacionamento entre um menor e um adulto (ou a sexualidade infantil em geral) não era algo do que ponderava muito, pois ainda estava tentando compreender a mim mesmo. Hoje em dia, mesmo que possa reconhecer que a sexualidade infantil seja mais complexa do que pensamos, interações sexuais com crianças acarretam riscos demais para elas, e não o encorajaria.

Ao pesquisar tudo isso, também aprendi sobre o shotacon (e o lolicon, mas o shotacon era mais pertinente no meu caso). Achava o conceito da pornografia animada/desenhada envolvendo personagens que eram crianças interessante. Significava uma possível forma na que alguém com essa atração pudesse satisfazer suas fantasias sexuais sem colocar crianças reais em perigo. Lembro até ter me perguntado isso antes: se existia hentai com crianças fictícias, e se algo assim podia ser considerado legal por não ser real. (Pornografia envolvendo crianças de verdade estava definitivamente fora de questão.) Tentava-me buscá-lo na Internet, mas tinha medo. Para começar, naquele tempo não compreendia muito bem a situação legal com respeito a esses desenhos ou se existiam casos de pessoas presas por possuir desenhos. Entretanto, havia outra razão pela que temia buscar essas imagens. Apesar do óbvio que era a essa altura e quanta pesquisa fizera, ainda havia uma parte de mim que não queria acreditar que tinha essa atração. Tinha medo de que se eu visse essas imagens, não teria forma de voltar atrás: já não poderia negá-lo. A resposta jazeria explicitamente diante de mim. Claro que, em retrospecto, a resposta já era óbvia, mas naquela idade era difícil aceitá-lo.

Um dia decidi simplesmente fazê-lo: busquei-o. E encontrei-o. O que senti ao vê-lo aterrorizou-me. Tinha visto pornografia com adultos ou personagens adultos antes, e em ocasiões isso conseguia me excitar. Mas desta vez era diferente. Sentia-se mais “genuíno”. Nunca tinha me sentido dessa forma por uma imagem pornográfica. Aterrorizava-me porque, ao vê-lo, simplesmente já não tinha jeito para negá-lo: estava atraído por garotos jovens.

Durante as próximas semanas, me custava dormir. Não pude tirá-lo da mente. A ansiedade tinha começado de novo. Já não tinha dúvida, mas não sabia o que fazer. Ainda tinha muito medo de falar com alguém. Havia a possibilidade de ir para um terapeuta, mas tinha lido que muitos deles careciam da experiência ou do treinamento para tratar isso e que às vezes denunciavam pacientes mesmo se não fosse necessário. Devia-se a leis que incentivavam grandemente para os terapeutas informarem as autoridades sobre pacientes que considerassem “potencialmente perigosos”, com mais penalidades legais por não denunciar alguém que acabasse fazendo algo ruim que por denunciar alguém desnecessariamente.

Também preocupava-me que ver o shotacon pudesse me meter em apuros, pois não tinha certeza se era legal ou não. Algumas noites no meu quarto, temia que a polícia aparecesse de repente arrombando a porta. Estava confuso e consternado. Lembro inclusive que tentei ver pornografia gay (com adultos) numa espécia de tentativa para fazer que gostasse disso mais. Nunca foi o mesmo. No final acabei voltando ao shotacon novamente. Consternava-me: por um lado, fazia-me sentir gratificado sexualmente, mas por outro lado, não tinha certeza se o que estava fazendo estava certo. Os pesadelos começaram a me assombrar de novo.

Porém, pouco a pouco consegui aceitar a mim mesmo e a minha atração. Segui pesquisando. Aprendi que era um hebéfilo (pois essa era a faixa etária que geralmente achava atraente). Também ouvi falar sobre o termo “MAP”, mas ainda não entendia muito bem o que significava. Agora tinha uma ideia mais clara sobre a legalidade do shotacon e outras imagens similares: onde moro, é geralmente legal (mesmo que ainda se considera uma área “cinzenta”), e até em lugares onde não é, raramente se aplica essa proibição, pois as autoridades priorizam, como deveriam, crianças reais sobre desenhos. Comecei a me sentir mais à vontade comigo mesmo. Agora estava me compreendendo melhor. Sabia que essa atração não significava que um dia iria perder o controle e sentido de moralidade. Sabia que ter uma atração não era o mesmo que desejar estuprar ou fazer mal a alguém, e que tinha controle das minhas ações. Tinha aceitado que nunca poderia me livrar dessa atração, mas isso não queria dizer que não podia viver uma vida feliz e sã.

Assumi-me a alguns amigos de confiança. Também consegui reunir a coragem para falar com meus pais sobre o assunto. Mesmo que falar disso foi difícil no início, já que estava revelando o que por anos aterrava-me que outros soubessem, uma vez que consegui tirar as palavras da boca, desabafar-me, para então ouvir que me entendiam e que ainda me aceitavam como era, manifestou-se um sentimento como de tirar um enorme peso de cima (guardar um segredo assim por tanto tempo acarreta uma grande carga emocional). Fez-me sentir muito melhor comigo mesmo após tudo ter transcorrido.

Também decidi visitar um terapeuta. Embora estava começando a me sentir mais à vontade comigo mesmo, ainda queria ouvir a opinião dele. Depois de duas sessões muito longas que consistiram sobretudo em explicações sobre a minha atração e alguns dos primeiros indícios da minha infância, o terapeuta determinou que eu não representava nenhum perigo para crianças, pois eu já estava muito ciente do que tinha e não mostrava intenção nenhuma de prejudicar ninguém. Também percebeu que eu aceitava a mim mesmo e que estava vivendo uma vida saudável. No final, não havia muito mais do que falar, então decidimos terminar as sessões, mais ele deixou-me saber que podia voltar e retomá-las a qualquer momento.

Apesar do meu conforto recém-descoberto, uma coisa que ainda me inquietava era o fato de que não parecia haver nenhuma rede de apoio para pessoas como eu. Por muito tempo, só podia me preocupar sobre mim mesmo como MAP e como isso poderia me afetar. Agora que me sentia mais à vontade comigo mesmo, não pude evitar pensar em outras pessoas como eu que ainda tentavam aceitar isso sem ter quase ninguém com quem falar e pouca indicação de por onde começar a procurar. Com os anos, também pensei em adolescentes passando por uma experiência semelhante à que eu passei durante essa idade. Parecia-me tão injusto que MAP jovens tivessem que sofrer toda essa ansiedade e confusão por algo inato para então ter que confrontá-lo tudo a sós.

Às vezes procurava discussões ou artigos sobre pessoas com essa atração e como conseguiam lidar com ela. Infelizmente, não tinha muita informação que pude encontrar, mas tinha muito conteúdo encolerizado que fazia com que eu quisesse parar de buscar: a negatividade lembrava-me daqueles horríveis dias quando me sentia desamparado.

Mas tinha uma coisa que ainda me irritava bastante. Em raras ocasiões, encontrava artigos ou vídeos que tentavam falar disto, seja um MAP falando sobre a sua experiência, uma discussão sobre como ajudar essas pessoas ou uma conversa acerca do estigma que existe em torno desse tópico. Cada vez que olhava as respostas a esses artigos/vídeos, via pessoas reagindo duma maneira desprezível. Diziam que esses artigos/vídeos estavam “normalizando” o abuso sexual infantil, que estavam defendendo monstros irredimíveis, que essas pessoas mereciam a morte ao invés de ajuda. A tudo isso, ficava me perguntando se essas pessoas de verdade viram ou leram o mesmo que eu. Achava francamente perturbador como as pessoas reagiam duma maneira tão odiosa àqueles que tentavam desesperadamente se entender e que procuravam ajuda. Esses comentários excretavam negatividade. Comparavam isso com defender assassinos, insultavam autores e exprimiam sua incredulidade de que uma pessoa com essa atração pudesse ser alguma outra coisa além dum monstro obcecado com estuprar. Tudo isso enojava-me. Irritava-me tanto que pessoas como eu não pudessem sequer procurar ajuda e tentar ser seres humanos decentes, embora sua atração, sem ser expostas a puro ódio e repulsa. Essa atitude não faz nada para proteger crianças do abuso. Na verdade, pode-se argumentar que contribui para o oposto: leva pessoas vulneráveis à beira do isolamento e desespero, o que, para alguns, pode conduzir a ações lamentáveis. Além disso, essa abordagem de tratar com o abuso apenas após ser tarde demais ao invés de buscar maneiras de impedi-lo mal protege alguém. Se quisermos conservar alguma esperança de minimizar o abuso sexual infantil tanto quanto possível, é fundamental que se entenda adequadamente com que se está lidando.

Lembro-me dum vídeo de YouTube. Não recordo o título ou a pessoa que o fez, mas lembro que tinha um homem jovem na câmara reagindo a várias coisas que encontrava na Internet. Num ponto no vídeo, ele encontrou o que parecia ser um fórum de psicologia onde usuários falavam sobre problemas psicológicos que encaravam para receber, possivelmente, comentários dum profissional ou pelo menos de outros usuários do fórum. Ele tinha encontrado uma mensagem de alguém que temia que pudesse ser pedófilo. Dizia que ele estava tendo pensamentos sexuais sobre crianças e que não sabia o que fazer. Tinha a esperança de que alguém nesse fórum pudesse lhe ajudar.

A isto, o homem do vídeo de YouTube disse algo como “Pois, talvez você poderia começar por deixar de ser um pedaço de merda”, no tom mais natural. Fiquei muito zangado. Aqui tinha alguém que estava descobrindo isso sobre si mesmo e que procurava ajuda tanto para entender o que tinha quanto por medo de que pudesse significar que poderia se tornar em estuprador de crianças, e este homem simplesmente lhe diz para “não ser um pedaço de merda”, como se fosse sua escolha ter essa atração, como se toda essa questão se pudesse resolver apenas com “deixar” de estar atraído por menores, como se ter essa atração não escolhida fosse suficiente para considerá-lo um “pedaço de merda”, como se ele fosse uma má pessoa simplesmente por pedir ajuda. Não pude continuar assistindo o vídeo depois disso.

Já adulto e formado na universidade, comecei a assistir dois podcasts no YouTube: MAPs IRL e Journeys with MAPs and Legends (agora intitulado A MAPs Journey). Comecei a aprender mais e mais sobre a comunidade MAP: aprendi sobre todos os termos relacionados e sobre todas as pessoas maravilhosas (tanto atraídos por menores quanto não) que perseveravam ante toda a hostilidade para poder ajudar outros MAP. Inclusive comecei a conhecer outros MAP pela Internet. Porém, a hostilidade constante que presenciava dirigida a pessoas como eu ainda me irritava. De fato, agora desenvolvia-se em mim um desejo, um desejo que me implorava para dizer algo, para deixar todos saberem que eu, um MAP, um hebéfilo, existia, e que era um ser humano como qualquer outro. A negatividade constante que via com respeito a essa atração fazia-me sentir mais e mais aborrecido. Esse sentimento fazia com que aquele desejo supradito ficasse mais e mais forte, até que um dia decidi que já tive suficiente: o “shocu” nasceu. Criei uma conta de Twitter e fui como numa vociferação. Acabei entrando em muitas discussões com desconhecidos que talvez pude manejar melhor, mas pelo menos por fim estava deixando o mundo saber o que pensava.

Com o tempo decidi escrever um ensaio que explicava o que significava muitos dos termos relacionado aos MAP, pois tinha percebido que muita da hostilidade dirigida a nós originava-se de concepções erradas e mal-entendidos sobre o que era ser um MAP. Também queria apresentar o meu argumento de que os MAP são desumanizados injustamente. Era tudo para tentar oferecer a minha perspectiva honesta como MAP para o mundo. Ao decidir como o ia publicar, optei por criar uma conta de WordPress para fazer um site onde pudesse colocar esse ensaio e também para ter um lugar disponível para qualquer ensaio futuro que escrevesse.

Durante meu tempo em Twitter, testemunhei pessoas exprimindo o seu nojo por minha existência. Ser o alvo de tal ódio às vezes impactava-me fortemente. Ver tantas pessoas tão convencidas de que era um monstro, de que era incapaz de nada bom, de que era só uma bomba-relógio, de que merecia a morte: tudo aquilo produzia em mim um desconforto profundo pela humanidade. Perturbava-me que tinha pessoas tão dispostas a demonizar aquilos diferentes a elas e insistir em presumir o pior dos outros. Esse sentimento de ser odiado, especialmente quando é por algo inato, pela mera existência, é literalmente nauseante. Às vezes, sobretudo ao princípio, sentia uma sensação vascosa no estômago. Sentia-se como se o meu corpo estivesse tentando digerir todo aquele ódio pútrido. Frequentemente precisava parar o que estava fazendo para ir ao banheiro. Inclusive agora, às vezes sinto essa sensação no estômago ao fazer login no Twitter em antecipação do que poderia estar me esperando. Apesar de tudo isso, que a minha voz possa ser ouvida, a mudança positiva que às vezes vejo em outros MAP, a maneira na que minhas palavras os influenciam positivamente, as vezes que vejo pessoas fazerem o esforço para aprender sobre nós e as raras ocasiões nas que conheço alguém que por fim compreende por que digo o que digo têm feito que tudo tinha valido a pena. No geral, acho que isso tem sido uma experiência positiva para mim, não apenas pela sensação de poder ajudar alguém no mundo a compreender isso ou pelo menos poder provir para outros MAP um sentido de solidariedade, mas também porque pude me exprimir e deixar todos saberem o que eu, um MAP, pensa. Tem me servido como uma espécie de desafogo emocional.

Então, aqui estou, ainda fazendo o possível para educar, ainda fazendo o possível para prestar apoio, ainda fazendo o possível para mostrar a todo o mundo que sou humano, que todo MAP é humano e que deveríamos ser tratados como tal. Não sei quantas pessoas veem os meus tweets e ensaios e entendem de verdade o que tento dizer, mas seguirei a escrever com a esperança de que em alguma parte a minha voz possa ser ouvida, ou que pelo menos outros MAP possam ver que não estão sozinhos, que são mais do que sua atração, que são humanos.

Published by shocu

Gay hebephile (MAP) Attraction ≠ desire to harm Against abuse

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